Nos últimos
tempos, Luanda parecia um inferno de comerciantes onde regras não existiam para
quem quisesse vender os seus produtos. As pontes pedonais e os seus arredores foram
transformados em autênticas praças em que nem as grandes quantidades de lixo e águas
estagnadas serviam de impedimento para o comércio.
A mistura
desses “ingredientes” criava as condições necessárias para o surgimento de
muitas doenças para os cidadãos, pois uma boa parte das famílias luandenses
ainda usa tais mercados para aquisição dos seus bens e produtos de consumo
diário.
Para pôr fim a
essa triste situação, o Governo Provincial de Luanda em conjunto com o Comando
Provincial da Polícia Nacional deu início no passado dia 6 de Novembro a tão
famosa e ansiada “Operação Resgate”. De acordo com as autoridades, esta
operação tem como objetivos principais o resgate dos valores de boa convivência
e cidadania, bem como também a restruturação do mercado informal na capital do
país.
Apesar de
também estar interessado no resgate dos valores de cidadania, eu irei focar-me
apenas no lado económico desta operação.
A queda do
preço do barril de petróleo levou o nosso governo a olhar para os impostos como
mais uma forma de arrecadação de receitas para nossa economia (algo que já devia
ser feito há muitos anos). Para tal, o governo reforçou a Administração Geral
Tributária de modo a apertar o cerco às empresas (legalizadas) que não pagavam
os seus impostos (por causa disso assistimos a uma procura infernal de
contabilistas em Angola).
Depois da
organização do mercado formal, o governo sentiu também a necessidade de restruturar
o mercado informal. Sendo Luanda o principal foco económico do país, o governo
optou por criar a operação regaste com vista a dar vida ao plano de organização
do mercado informal angolano. Apesar de não possuir dados estatísticos, podemos
notar a olho nu que uma boa parte das actividades de compra e venda em Angola é
feita a partir do mercado informal, que infelizmente ainda não gera receitas para
o Estado. Por exemplo, muitos cidadãos estrangeiros que possuíam cantinas e
outros tipos de empreendimentos informais transferiam, na totalidade, todas as
suas receitas para os seus respetivos países e não pagavam nenhum tipo de
imposto uma vez que os seus estabelecimentos não estavam devidamente
legalizados.
Tal como os
estrangeiros, muitos cidadãos nacionais que se dedicavam ao comércio informal
(zungueiras, quitandeiras e outros) também não contribuíam para os cofres do Estado
pois não existiam mecanismos que os obrigasse a fazer tal coisa.
Nesta senda, a
operação resgate servirá como impulsionador para a legalização destes
comerciantes uma vez que se os mesmos não o fizerem serão forçados a deixar de
exercer tais actividades.
Apesar de eu
considerar essa operação como muito importante para a organização da nossa
economia, eu acho que a mesma seria o ponto final e não o princípio para a tão
esperada organização.
No meu ponto
de vista, as entidades competentes deveriam inicialmente criar as devidas
condições para execução efectiva desta operação regaste. Por exemplo, tais
condições passariam por criar primeiramente mais mercados para acomodação total
dos indivíduos que efetuam as suas vendas nos locais impróprios. Nestes mesmos
mercados, cada comerciante teria de pagar uma taxa que neste caso funcionaria
como imposto a favor do Estado. Outro passo que deveria ser dado antes da
operação, seria a criação de um sistema mais eficiente para o cadastro dos
comerciantes informais (bares, lanchonetes, cantinas e outros) de modo a que os
mesmos passassem a contribuir para os cofres do Estado através de impostos. E
por último, mas não menos importante, o governo deveria criar campanhas de
sensibilização mais longas e abrangentes com vista a dar o tempo necessário
para os comerciantes se organizarem. Por exemplo, as campanhas podiam ter o
mesmo formato da campanha de sensibilização para o repatriamento voluntário de
capitais que está a ser levada a cabo pelo governo nacional.
Depois
de criadas todas estas condições, o governo estaria em condições mais do que
perfeitas para executar eficientemente a Operação Resgate.
Augusto António
Academia For Students
Já não chove há algum tempo, então decidiram subir ao monte e orar. Ora, precisamos de secrifacar uma parte para que volte a chover. Santo FMI, todo poderoso, recebe a nossa população pobre como sacrifício puro e agradável.
ResponderEliminarWagner Moura, interpretando o Capitão Nascimento, no filme Tropa de Elite 2, contra a operação da invasão ao morro do Turano, de modo a garantir o sono do papa que estava de visita no Brazil, sabia que a operação ia falhar e chamou a operação: Operação Iraque. Operação Resgate = Operação Iraque.
8 ou 80? Certo! Não houve campanha de sensibilização. Até aqui não foi apresentado nehum programa de assistência social por parte do Estado, para estes cidadãos.
Estiveste muito bem Augusto,
Obrigado pelo texto.
... First, let’s just say that it’s a very well written article!!!
ResponderEliminarNotei que, numa zona de Viana (próximo da Comarca), as quitandeiras foram encaminhadas para um lugar - muito próximo do local onde vendiam - mais apropriado para o comércio.
Ou as quitandeiras dessa zona tiveram sorte em ter um espaço já disponível ou a administração esteve bem organizada.
Depois de ver aquela organização me questionava se nas outras zonas as quitandeiras também foram sortudas ou se as administrações estiveram organizadas. Pelo nível de reclamações e por ter visto uma manifestação, me parece que não!
Por outra, uma vez que a operação já começou que pelo menos informassem aos agentes o que “Operação Resgate” realmente significa porque tem alguns que não tratam bem as quitandeiras e já ouvi que alguns estão a pedir gasosa.