A inflação é uma das palavras mais bonita da ciência
económica. Por de trás desta benignidade se esconde o terror de qualquer
economia. A inflação é definida, nos livros de economia, como a subida
generalizada dos preços, talvez diria a subida descontrolada dos preços por ser
muito difícil de controlar depois de soltar a sua fúria. A inflação é vista o
como:
- Segundo mal depois da guerra civil que mais
tem causado instabilidade social.
- Imposto sobre os mais pobres, sendo que
quanto maior a inflação maior a desigualdade entre os mais ricos e os mais
pobres.
Dentro da espécie inflação existe uma totalmente perigosa
denominada inflação inercial. Este tipo de inflação é derivada da
expectativa que agentes económicos têm sobre a subida dos preços. Para controlar
esta inflação é preciso a implementação, por parte do governo, de uma política
monetária totalmente fora do padrão. Talvez Angola necessite de uma política
fora do padrão, porque foi assim que economias como Alemanha e Brasil
conseguiram controla a hiperinflação.
Referir que, no caso Brasil o combate a inflação durou 16
anos, talvez no caso de Angola dure mais ou menos tempo. Acredito que é preciso
passarmos por essa experiência para conhecermos as características da nossa
inflação “É preciso conhecer a fera, se quisermos domá-la”.
Não diria que a inflação fora um bicho-de-sete-cabeças em
todas economias, mas de certeza foi na Alemanha em 1923, no Brasil entre
1986-2002, foi o responsável pela degradação da economia do Zimbabwe, e
tem tirado o sono do Governo Angolano desde o terceiro trimestre de 2014 até a
data da publicação deste artigo. Seria interessante começar por descrever o que
aconteceu na Alemanha entre 1918–1923.
Depois do final da primeira guerra mundial em 1919
Alemanha ficou mergulhada em caos,
miséria por todo o país, isso mesmo “miséria por todo o país” Alemanha não era
o que é hoje. Em 1923 um dólar americano chegou a 4.2 trilhões de
marco alemão, sendo que nesta altura as pessoas tinham que carregar grandes
quantidades de marco alemão para comprar um bem de primeira necessidade. A
inflação na Alemanha foi tão aterrorizante que chegou ao ponto em que as
pessoas queimavam dinheiro para aquecer a sua casa, o marco alemão valia zero.
Entre o caos surgiu aquele que
conseguiu combater a inflação, Hjalmar Schacht na altura
presidente vitalício do Banco Central da Alemanha.
No caso do Brasil, o governo implementou várias
estratégias de combater a inflação tais como o Plano Cruzado I e II, Plano
Verão, Plano Collor I e II, e por último o bem-sucedido Plano Real
que implementou o real como moeda oficial da República Federativa do Brasil.
Estas reformas monetárias foram implementadas entre 1986-2002 destacando como
denominador comum o congelamento dos preços e salários, na expectativa de poder
controlar a inflação.
- A inflação foi controlada?
R: Sim! a inflação fora na maior parte dos casos
controlada, mas durante um período muito curto de tempo.
Congelar os preços e salários torna-se uma arma letal e
duradoura de combate a inflação, se o governo implementar uma política de
sanidade nas contas públicas. Foi esta estratégia que garantiu o sucesso do
Plano Real, em relação aos planos anteriores.
A inflação em Angola é um “cancer” alimentado por duas
“células cancerígenas”. Custo de produção derivado, na maioria dos casos, da
baixa produtividade interna e a forte dependência sobre a importação causada
pela baixíssima competitividade do setor produtivo nacional. Angola chega a
importar aproximadamente 80% dos produtos consumidos pelas famílias angolanas (BNA,
2017). O atual Presidente da República (PR) Gen. João Lourenço, na
conferência de imprensa datada a 21 de Dezembro de 2018 afirmou que a taxa de
inflação anual em 2016, 2017 e 2018 foram de 41,9%, 23,7% e 18% respetivamente,
e espera-se em 2019 uma taxa de inflação a rondar os 15%. Nos países
desenvolvidos os bancos centrais entendem como estabilidade dos preços uma taxa
de inflação no médio prazo próximo de 2%. Angola tem muito caminho a percorrer,
mas é importante usar as economias mais desenvolvidas como benchmark. As
taxas anunciadas pelo PR são oficiais, como sabemos, infelizmente, maior parte
das famílias angolanas vive do mercado informal.
Portanto, seria interessante
se o governo tivesse em conta a taxa de inflação do mercado informal. Segundo
os relatórios do BNA e INE, em 31 de dezembro de 2017, a taxa de
inflação acumulada nos últimos três anos aproximou-se ou ultrapassou os 100%,
dependendo do índice utilizado, existindo igualmente a expectativa de que
continuará a exceder cumulativamente os 100% nos próximos anos, colocando
angola na categoria de economia hiperinflacionista. As economias hiperinflacionista são
aquelas que têm uma taxa de inflação mensal igual ou superior a 50%. Entre
2016-17 com a crise no seu auge os desajustes da taxa de câmbio levaram os
importadores a pagar mais kwanzas para obter o mesmo produto,
começando com isso um ciclo vicioso que sempre terminava em mais inflação. O
importador pagava mais, então exigia mais dos retalhistas (armazéns, comerciantes
e etc… muitos deles faziam parte na altura do mercado informal), estes por sua
vez cobravam mais kwanzas ao consumidor final (família
angolanas). Ora, isto no final do dia vai se chamar inflação.
Pela dificuldade que o Governo encontrou em controlar a
inflação do sector informal, surgiu a fase da inflação responsável pela hiperinflação em
Angola, denominada inflação inercial. Este tipo de inflação é explicado em
economia pela teoria das expectativas adaptativas, que diz que a inflação
amanha será formada com base ao nível de inflação registada hoje. Ou seja, o
Marcos aumenta o preço hoje, a Maria verifica que o Marcos aumentou o preço, e
amanha a Maria ajusta o seu preço esperando que o Marcos tenha o mesmo
comportamento, e assim sucessivamente gerando no final do mês a hiperinflação.
Reforçando mais uma vez, hiperinflação é basicamente um fenómeno em
que os preços sobem pelo menos 50% ao mês.
Com inflação inercia surgiu a instabilidade dos preços e
no final do mês hiperinflação. É este ciclo vicioso que tem dificultado a
vida dos Angolanos desde o início da crise financeira em 2014. Em 2017 a
escassez de divisas para importação do trigo, causou escassez no mercado
interno, fazendo com que o preço do pão aumentasse mais de 100% em poucos
meses. Este mesmo fenómeno aconteceu no mercado de compra e venda de
automóveis. As famílias Angolanas têm vivido momentos difíceis devido as taxas
de inflação registada desde 2014 até a data de publicação desde artigo.
Devidos aos desajustes nas taxas de câmbio, aqueles que
trabalham em Angola e auferem de um rendimento mensal em moeda estrangeira,
presenciaram um suposto incremento no seu poder de compra a uma proporção igual
ou superior a redução do poder de compra daqueles com rendimento em moeda
nacional (maior parte dos angolanos), mas a inflação registada no mercado
interno teve a paciência de esclareceu de que ninguém estaria imune as sua
consequências. Ou seja, o poder de compra de todos foi afetado pela inflação,
mas aqueles com rendimentos em moeda estrangeira sofreram menos em relação
aqueles com rendimentos em kwanza. Este facto foi possível devido a
inflação, por isso a considero a inflação um câncer que tem dizimado o poder
der compra de milhares de Angolanos.
Por este motivo, é importante que o Banco Nacional de
Angola, junto com o Ministério das Finanças continuem a dar uma atenção
especial ao combate a inflação. O combate a inflação é feito de várias formas
consoante a tipologia de economia cada país. Uma economia como a de Angola,
pequena e pouco aberta ao exterior, o combate deve focar-se numa política de
sanidade das contas públicas, e no controle cerrado as variações da moeda local
face as principais divisas. Os livros economia dizem-nos que os gastos públicos
são destinados para investimento e consumo. O primeiro destino é quando o
Estado constrói ou recupera escolas, estradas, hospitais e etc…, o segundo tem
a ver com os subsídios e os diversos apoios sociais concedido pelo Estado.
Reduzir os gastos públicos, mais a vertente de consumo do que investimento, é
um bom passo para controlar os desequilíbrios nas contas públicas, mesmo não
sendo uma decisão muito popular e de fácil compreensão por parte do cidadão
comum.
Marcos Fernando
Academia For Students
Salário líquido dos mais pobres = Salário Bruto (caso tenha emprego) - IRS - Segurança Social - Inflação.
ResponderEliminarSalário líquido dos mais pobres = desenrascanço (caso não tenha emprego) - inflação